Aprovado na Reforma Tributária, o Split payment pode retirar R$ 12 bilhões do caixa de empresas varejistas
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| Imagem criada pelo Diário do Mercado com IA |
A Reforma Tributária vai provocar uma mudança significativa na forma como empresas brasileiras recolhem impostos. A partir de 2027, o chamado split payment, ou pagamento dividido, deverá começar a ser implementado de maneira gradual, permitindo que os tributos sejam separados automaticamente no momento em que uma compra é paga.
A mudança tem como principal objetivo aumentar a eficiência da arrecadação e combater a sonegação, mas vem gerando preocupação entre empresários devido ao impacto sobre o fluxo de caixa. Segundo levantamento da Peers Consulting + Technology, aproximadamente R$ 12 bilhões em tributos sobre o consumo poderão ser alcançados pelo mecanismo apenas entre as dez maiores varejistas de capital aberto do país.
Como funcionará o split payment
Atualmente, em muitas operações, a empresa recebe o valor integral da venda e posteriormente calcula e recolhe os impostos devidos. Nesse intervalo, os recursos podem permanecer temporariamente no caixa da companhia e ajudar a financiar despesas, estoques, fornecedores e outras necessidades operacionais.
Com o split payment, essa dinâmica muda.
Quando o consumidor realizar o pagamento por meios como Pix, cartão de crédito, cartão de débito, boleto ou transferência, o sistema deverá identificar os tributos correspondentes à operação, separar os valores e direcioná-los ao Fisco.
Na prática, o comerciante receberá em sua conta o valor líquido da operação, já descontada a parcela destinada aos impostos. O novo modelo envolverá principalmente o IBS (Imposto sobre Bens e Serviços), de competência estadual e municipal, e a CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços), de âmbito federal.
Impacto de R$ 12 bilhões no varejo
O levantamento da Peers estima que, entre as dez maiores varejistas de capital aberto, cerca de R$ 12 bilhões dos aproximadamente R$ 30 bilhões pagos anualmente em tributos estariam sujeitos ao impacto do novo mecanismo.
Isso representa aproximadamente 40% da carga tributária atualmente paga por essas empresas e não significa necessariamente que elas pagarão R$ 12 bilhões a mais em impostos. O valor representa, principalmente, recursos que deixarão de permanecer temporariamente no caixa das companhias e passarão a ser direcionados ao Fisco no momento da transação.
Essa diferença é importante porque o principal temor do setor não é apenas o tamanho da tributação, mas a perda de liquidez.
Fim de uma importante fonte de capital de giro
Para muitas empresas, o período entre o recebimento das vendas e o recolhimento dos impostos funciona como uma espécie de “fôlego” financeiro.
Com o novo sistema, esse intervalo tende a desaparecer. O dinheiro correspondente aos tributos não ficará disponível para a empresa durante esse período.
Especialistas alertam que o impacto pode ser ainda mais relevante para empresas médias e pequenas, que possuem menor capacidade de acesso a crédito e dependem mais do capital de giro próprio para manter suas operações.
Caso a liquidez não seja compensada por melhorias na gestão financeira, algumas companhias poderão precisar recorrer a empréstimos, antecipação de recebíveis ou outras modalidades de financiamento para manter o mesmo nível de operação.
Governo ganha eficiência contra a sonegação
Do ponto de vista do poder público, o mecanismo apresenta uma vantagem importante: o imposto é recolhido na origem da operação.
A retenção automática reduz o intervalo entre a venda e o pagamento do tributo e pode dificultar práticas de sonegação e inadimplência tributária. Especialistas consideram o sistema uma mudança importante na forma de fiscalização e arrecadação dos impostos sobre o consumo.
A tecnologia também deverá reduzir parte da necessidade de controles manuais e de processos posteriores para identificação e cobrança dos tributos.
Empresas terão de se adaptar
A implementação exigirá investimentos em tecnologia, sistemas de gestão, contabilidade e integração com instituições financeiras e meios de pagamento.
Bancos, operadoras de cartões, fintechs e demais instituições envolvidas nas transações terão papel importante na separação e no repasse dos valores correspondentes aos tributos.
Outro desafio será lidar com a complexidade da transição entre o atual sistema de impostos e o novo modelo baseado no IBS e na CBS.
A implementação deverá ocorrer de forma gradual, com etapas de adaptação e utilização inicialmente facultativa em determinadas operações, antes da ampliação do mecanismo.
O alerta para o mercado
O split payment não representa, por si só, um aumento de R$ 12 bilhões na carga tributária das dez maiores varejistas. O número indica o volume estimado de tributos que poderá deixar de circular temporariamente pelo caixa dessas empresas.
Para o Diário do Mercado, o ponto central da discussão é justamente esse: a Reforma Tributária poderá mudar não apenas a maneira de calcular e recolher impostos, mas também a dinâmica financeira das empresas brasileiras.
Com menos recursos temporariamente disponíveis, o capital de giro poderá ganhar ainda mais importância na gestão empresarial. Empresas que não se prepararem para a mudança poderão enfrentar maior necessidade de crédito e custos financeiros adicionais.
Ao mesmo tempo, o governo deverá ganhar maior previsibilidade e eficiência na arrecadação, com o recolhimento ocorrendo cada vez mais próximo do momento em que a venda é realizada.
A grande questão para o mercado será encontrar o equilíbrio entre eficiência tributária, combate à sonegação e preservação da capacidade financeira das empresas.
Diário do Mercado — 13 de agosto de 2026
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